O encaminhamento de um aluno feito pela escola para a Intervenção ou Avaliação Psicopedagógica pode ser um passo importante antes de outros encaminhamentos porque nos permite compreender como este aluno aprende, quais dificuldades estão interferindo nesse processo e quais estratégias pedagógicas já foram ou ainda podem ser utilizadas. Antes de buscar um diagnóstico, é preciso analisar o contexto que o aluno vive e estuda, como ele aprende, como se comporta e se realmente todas as estratégias e metodologias foram esgotadas.
Passada esta fase teremos mais dados e clareza para definirmos os próximos passos e se caso necessário, os encaminhamentos, que serão específicos para a demanda identificada.
Este processo evita o desgaste da família, da criança ou do adolescente envolvido.
Devemos sempre considerar que uma criança ou adolescente tem a sua percepção sobre tudo que acontece ao seu redor e assim, a sua interpretação sobre os fatos.
Avaliações precoces, sem uma finalidade específica ou mesmo realizada de forma inadequada pode trazer prejuízos para o avaliando.
Hoje muito se discute sobre o número elevado de diagnósticos de crianças e adolescentes no contexto escolar. Um crescimento exponencial de casos principalmente de Transtorno de Déficit de Atenção e Transtorno de Ansiedade. Grande parte destes casos trouxeram sinais no contexto de aprendizagem escolar.
Quando um aluno começa a apresentar dificuldades, é comum surgirem dúvidas.
Por que ele não acompanha a turma?
Por que não consegue terminar as atividades?
Por que se distrai tanto?
Por que apresenta dificuldade para ler, escrever ou compreender determinados conteúdos?
Essas perguntas são importantes.
O cuidado está em não transformar rapidamente uma dificuldade observada em uma hipótese sobre o que o aluno “tem”.
Antes de qualquer conclusão, existe uma pergunta fundamental:
O que esse aluno está nosmostrando sobre a maneira como aprende?
A dificuldade escolar precisa ser compreendida
Uma dificuldade de aprendizagem não acontece isoladamente.
O aluno está inserido em uma sala de aula, participa de uma rotina, recebe determinadas propostas, responde às estratégias utilizadas pelo professor e estabelece relações com colegas e educadores.
Por isso, olhar apenas para o comportamento final pode fornecer uma visão incompleta.
Um aluno que não realiza uma atividade, por exemplo, pode:
- não ter compreendido a orientação;
- não saber como começar;
- precisar que a tarefa seja dividida em etapas;
- apresentar dificuldade para organizar as informações;
- precisar de mais tempo;
- não ter consolidado conhecimentos anteriores;
- utilizar estratégias pouco eficientes para aquela atividade.
São situações diferentes e que podem exigir intervenções diferentes.
Antes de encaminhar, é preciso observar e intervir
O encaminhamento pode ser necessário em determinados casos.
Mas ele ganha muito mais qualidade quando é resultado de um processo de observação, registro e intervenção.
Antes de encaminhar, a escola pode se perguntar:
- Em quais situações a dificuldade aparece?
- Ela acontece em todas as disciplinas?
- Quais habilidades o aluno já apresenta?
- O que ele consegue fazer sozinho?
- Em quais momentos precisa de ajuda?
- Quais estratégias já foram utilizadas?
- Houve alguma mudança quando a forma de ensinar foi modificada?
- Como o aluno responde a orientações individuais?
- A dificuldade permanece ao longo do tempo?
Essas informações ajudam a construir uma compreensão mais ampla sobre o processo de aprendizagem.
O que é uma intervenção psicopedagógica?
A intervenção psicopedagógica não significa apenas identificar dificuldades.
Ela busca compreender a relação do aluno com a aprendizagem e desenvolver estratégias que favoreçam esse processo.
Isso pode envolver aspectos como:
- leitura e escrita;
- raciocínio;
- compreensão;
- atenção;
- memória;
- organização;
- planejamento;
- Funções Executivas;
- estratégias de estudo;
- autonomia;
- relação com as tarefas escolares.
A intervenção parte daquilo que o aluno já consegue realizar e procura compreender quais recursos podem ajudá-lo a avançar.
Nem toda dificuldade significa um transtorno
Esse é um cuidado especialmente importante no ambiente escolar.
Dificuldade para manter a atenção não significa automaticamente TDAH.
Dificuldade de leitura não significa automaticamente Dislexia.
Problemas de organização não significam necessariamente um transtorno.
Existem muitos fatores que podem interferir temporariamente ou persistentemente na aprendizagem.
Por isso, a observação pedagógica e psicopedagógica ajuda a produzir informações mais consistentes antes de se levantar hipóteses ou buscar outros profissionais.
A escola observa a aprendizagem. Ela não precisa transformar cada dificuldade em um diagnóstico.
O encaminhamento não deve ser apenas uma transferência da dificuldade
Quando uma dificuldade persiste, encaminhar o aluno pode fazer parte do cuidado.
Mas existe uma diferença entre encaminhar para compreender melhor e simplesmente transferir para outro profissional a responsabilidade sobre aquilo que está acontecendo.
Mesmo quando o estudante inicia um acompanhamento externo, ele continua aprendendo dentro da escola.
Isso significa que o diálogo precisa continuar.
Escola, família e profissionais que acompanham o aluno podem compartilhar observações e construir estratégias, respeitando os limites e as responsabilidades de cada área.
O encaminhamento, portanto, não encerra o trabalho da escola.
Ele pode ampliar esse trabalho.
Qual é a contribuição da Psicopedagogia para a escola?
A Psicopedagogia possui um olhar direcionado para o processo de aprendizagem.
Diante de um aluno com dificuldades, a pergunta não é apenas:
“Qual é o problema?”
Também é:
“Como esse aluno aprende?”
A partir desse olhar, é possível observar como ele:
- compreende orientações;
- organiza informações;
- inicia uma atividade;
- mantém-se na tarefa;
- utiliza estratégias;
- reage diante de um erro;
- solicita ajuda;
- administra materiais e prazos;
- transfere o que aprendeu para novas situações.
Essas informações podem ajudar a compreender melhor aquilo que aparece no cotidiano escolar.
Intervir também significa experimentar novas estratégias
Quando uma estratégia não funciona para determinado aluno, isso não significa necessariamente que ele seja incapaz de aprender aquele conteúdo.
Pode ser necessário apresentar a informação de outra maneira.
Algumas possibilidades incluem:
- dividir atividades extensas em etapas menores;
- tornar as instruções mais objetivas;
- utilizar recursos visuais;
- verificar se o aluno compreendeu o que precisa fazer;
- oferecer referências para iniciar a atividade;
- trabalhar com exemplos;
- organizar rotinas e sequências;
- utilizar checklists;
- antecipar etapas;
- oferecer tempo adequado para a execução.
A resposta do aluno a essas mudanças também fornece informações importantes.
Intervir é, ao mesmo tempo, ajudar e observar.
A importância dos registros da escola
Quando existe a necessidade de um encaminhamento, dizer apenas que “o aluno tem dificuldade” fornece poucas informações.
Um registro mais detalhado pode ser muito mais útil.
Por exemplo:
- quais dificuldades foram observadas;
- há quanto tempo acontecem;
- em quais contextos aparecem;
- quais estratégias foram utilizadas;
- como o aluno respondeu;
- quais habilidades estão preservadas;
- quais mudanças foram percebidas.
Esse histórico contribui para que a família e os profissionais que eventualmente receberão o estudante compreendam melhor a situação.
Quando outros encaminhamentos podem ser necessários?
Existem situações em que a observação e as intervenções realizadas indicam a necessidade de ampliar a investigação.
A dificuldade pode persistir mesmo após mudanças nas estratégias, aparecer em diferentes contextos ou apresentar características que mereçam avaliação de outros profissionais.
Nesses casos, o encaminhamento pode contribuir para uma compreensão mais completa.
Dependendo da necessidade identificada, diferentes áreas podem participar desse processo.
O ponto principal é que o encaminhamento seja fundamentado em observações e não apenas em uma impressão inicial sobre o aluno.
Escola, família e Psicopedagogia precisam conversar
A aprendizagem não acontece em um único espaço.
A família observa comportamentos em casa.
A escola acompanha o estudante diante das demandas acadêmicas.
A Psicopedagogia pode investigar como ele utiliza suas habilidades e estratégias para aprender.
Quando essas informações são compartilhadas de maneira cuidadosa, é possível construir uma compreensão mais ampla.
Em vez de perguntar apenas:
“Para quem devemos encaminhar?”
Talvez seja importante perguntar primeiro:
“O que já compreendemos sobre a forma como esse aluno aprende?”
O aluno precisa participar desse processo
Especialmente com adolescentes, existe outro aspecto importante: ouvir o próprio estudante.
Ele pode ajudar a compreender:
- o que considera mais difícil;
- em quais disciplinas encontra maior facilidade;
- como costuma estudar;
- quando percebe que perde a atenção;
- o que faz quando não entende;
- quais estratégias acredita que funcionam;
- como se sente diante das dificuldades.
Dar espaço para essa percepção também favorece a construção de autonomia.
O estudante deixa de ser apenas alguém sobre quem adultos conversam e passa a participar da compreensão do próprio processo de aprendizagem.
Conclusão
A intervenção psicopedagógica na escola pode contribuir para que as dificuldades sejam compreendidas antes de encaminhamentos precipitados.
Isso não significa evitar outros profissionais quando eles são necessários.
Significa chegar a esse momento com mais informações.
Observar, registrar, experimentar estratégias e acompanhar a resposta do aluno permite que a escola construa um olhar mais cuidadoso sobre a aprendizagem.
Quando um encaminhamento se torna necessário, ele deixa de partir apenas da constatação de que “algo não está funcionando” e passa a ser sustentado por uma compreensão mais clara sobre o que já foi observado e realizado.
Antes de perguntar somente para onde encaminhar o aluno, vale compreender como ele aprende, onde encontra dificuldades e o que já foi feito para ajudá-lo a avançar.
