Família

Escola de Avós: como os avós podem
fortalecer vínculos com os netos

Os tempos mudaram — e com eles, o papel dos avós. Mas sua presença nunca foi tão necessária. Entenda como reconectar gerações e transformar o convívio familiar.

Christiane Mermerian
Christiane Mermerian
Psicopedagoga & Orientadora Familiar

"Na minha época era diferente." Era mesmo — especialmente quando se fala da relação com os netos. As conversas sobre a história da família eram mais frequentes, os almoços em família eram sagrados e o convívio entre gerações acontecia de forma mais natural e contínua.

Pode parecer saudosismo, mas os tempos realmente mudaram. A dinâmica familiar de hoje é permeada por novas rotinas, tecnologias e hábitos — e muitos avós se sentem inseguros quanto ao seu papel. Devo palpitar na educação do neto? Repreendo a criança sobre o uso excessivo do celular? Como transmito as tradições que passaram de geração para geração?

Essas perguntas, entre tantas outras, são o ponto de partida da Escola de Avós — um espaço de encontro, escuta e orientação que coordeno há anos. São reuniões mensais que reúnem avós para conversar sobre angústias, experiências e anseios, com temas que surgem da própria necessidade do grupo.

Por que os avós se sentem perdidos?

É preciso reconhecer: os avós de hoje navegam um território novo. Há algumas razões importantes para esse sentimento de desorientação.

A primeira é o distanciamento gradual no cotidiano familiar. As crianças têm agendas cada vez mais cheias, os pais vivem com pouco tempo disponível e o celular passou a ocupar boa parte dos momentos que antes eram de convívio. O resultado é um afastamento silencioso, que vai se instalando quase sem que ninguém perceba.

"O contar histórias e o afeto fazem bem durante toda a vida — e especialmente durante o envelhecimento. Para as crianças, privar-se disso é perder a âncora das suas raízes."

Christiane Mermerian

Para os avós, esse distanciamento é especialmente doloroso. Para as crianças, também não é bom: elas crescem sem conhecer a história da família, o que pode levar a um desenraizamento que favorece a falta de empatia e o individualismo. Os mais velhos, com seu jeito afetivo e lúdico de estar no mundo, têm um poder único de mudar esse cenário.

O novo perfil dos avós e a culpa desnecessária

Há também uma mudança significativa no perfil de quem tem mais de 60 anos hoje. Antigamente, a aposentadoria era quase sinônimo de dedicação exclusiva à família. Hoje, grande parte ainda está no mercado de trabalho, tem uma agenda ativa de atividades, viagens e compromissos sociais.

E isso é positivo. Investir na própria vida não é um impedimento para estar presente com os netos — pelo contrário. Mas muitos carregam culpa por não estar disponíveis o tempo todo. O que precisa ser dito com clareza é: o tempo de qualidade vale mais do que o tempo em quantidade.

Nos encontros da Escola de Avós, isso aparece com frequência. Os avós chegam com angústia e saem com ferramentas. Em grupo, um dá força para o outro — e percebem que não estão sozinhos nessa navegação.

O que acontece nos encontros?

Cada reunião tem duração de duas horas e parte de um tema central — mas o espaço é sempre aberto para o que o grupo traz. Já recebemos sessões com 50 pessoas, o que revela o quanto essa necessidade é real e urgente.

Os temas variam: comportamento dos adolescentes, uso de tecnologia, limites e afeto, transmissão de valores, como lidar com filhos que educam de formas diferentes da nossa. O fio condutor é sempre o mesmo — como ser um avô ou avó presente, relevante e bem-vindo na vida dos netos.

A memória como presente

Hisae, 75 anos, avó de duas meninas, resume bem o espírito dos encontros: "É importante que a gente resgate a história da família porque as crianças precisam conhecer suas raízes. E não tem ninguém melhor do que os avós para isso."

O mundo é mais complexo, as crianças são mais estimuladas, os encontros são mais escassos. Mas o que os avós têm a oferecer — afeto, memória, presença, história — é insubstituível. E quanto mais consciente for esse papel, mais transformador ele se torna.

A Escola de Avós nasceu exatamente com esse propósito: devolver aos avós a confiança no seu lugar único dentro da família. Não para competir com os pais, mas para completar — com tudo de mais precioso que só o tempo vivido pode oferecer.

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